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18 de Abril de 2021

A ingratidão da Globo

Com desfaçatez suprema, o jornal desculpa-se enquanto evoca as razões que, 50 anos atrás, pretende terem justificado o apoio ao golpe. Por Mino Carta — publicado 06/09/2013 08:27, última modificação 06/09/2013 10:03

Keila Mayany Xavier, Estudante
Publicado por Keila Mayany Xavier
há 7 anos

Por Mino Carta

Ingratidão da Globo me espanta, ela vomita no prato em que comeu, com o perdão pelo uso do verbo, de eficácia indiscutível, no entanto. Aludo ao editorial com que o mais autorizado porta-voz das Organizações, O Globo, brindou seus leitores dia 1º de setembro. Diz-se ali que apoiar o golpe de 64 foi erro nascido de um equívoco. Veio a ditadura, como sabemos, provocada pelos gendarmes chamados pelos donos do poder civil, entre os quais figurava, com todos os méritos, Roberto Marinho, e os anos de chumbo de alguns foram de ouro para a Globo.

A ingratido da Globo

A empresa do doutor Roberto cresceu extraordinariamente graças aos favores proporcionados pelos ditadores, gozou de regalias incontáveis, floresceu até os limites do monopólio. O apoio de 64 prosseguiu impavidamente por 21 anos, enquanto o Terror de Estado imperava. Grassavam tortura e censura, repetiam-se os expurgos dentro do Congresso mantido como estertor democrático de pura fancaria. Só o MDB do doutor Ulysses Guimarães redimiu o pecado original ao reunir debaixo da sua bandeira todos os opositores do regime. Para desgosto da Globo.

Sim, O Globo apoiou o golpe, juntamente com os demais jornalões como o editorial não deixa de acentuar, e também apoiou os desmandos do regime, a começar pelo golpe dentro do golpe que resultou no Ato Institucional nº 5. E prisões e perseguições, e até as ditaduras argentina, chilena e uruguaia.

Em contrapartida, combateu Brizola governador, e de modo geral, os demais governos de estado conquistados pela oposição em conjunturas diversas, bem como o movimento sindical surgido sob o impulso de um certo Luiz Inácio, presidente do Sindicado dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, responsável pelas greves de 78, 79 e 80, finalmente preso e enquadrado na famigerada Lei de Segurança Nacional.

Derradeiro lance global, a condenação inapelável do movimento das Diretas Já, quando a Globo foi alvo da ira popular e um veículo da empresa foi incendiado na Avenida Paulista no dia 25 de janeiro de 84, ao término de uma manifestação que reuniu na Praça da Sé 500 mil pessoas. Rejubilou-se, contudo, o doutor Roberto, com a rejeição da emenda das Diretas, obra magistral da Arena de José Sarney, e com a formação da Aliança Nacional, nome de fantasia da enésima, inesgotável conciliação das elites.

Não se diga que a Globo deixou de ser coerente com seus ideais. Decisiva na eleição de Fernando Collor em 89, com a manipulação do debate de encerramento com Lula, comandada pelo doutor Roberto em pessoa. Nosso colega, como sustentavam seus assalariados, não hesitou em promover a festa carnavalesca contra o presidente corrupto, desmascarado somente pela IstoÉ ao descobrir a testemunha inesperada e fatal, o motorista Eriberto. Antes disso, o governo Sarney contara com o apoio irrestrito da Globo, sempre beneficiada por Antonio Carlos Magalhães, ministro da Comunicações, na mesma medida em que o fora por outro amigo insubstituível, Armando Falcão, ministro da Justiça do ditador Ernesto Geisel. O governo Fernando Henrique quebrou o País três vezes, mas nunca lhe faltou o aplauso global oito anos a fio, tanto mais na hora do singular episódio intitulado “Privataria Tucana” e da compra dos votos para garantir a reeleição do príncipe dos sociólogos, sem falar do “mensalão"também tucano. Houve até o momento em que, tomado de entusiasmo, o doutor Roberto acreditou cegamente na sua colunista Miriam Leitão, segundo quem, eleito pela segunda vez, FHC garantiria a estabilidade da moeda até o último alento. Doze dias depois de reempossado, o príncipe desvalorizou o real e cobriu a Globo de dívidas. Havia, contudo, um BNDES à disposição para tapar o buraco.

FHC deixou saudades, a justificar o apoio compacto aos candidatos tucanos nas eleições de 2002, 2006 e 2010. E a adesão à maciça campanha midiática que, como em 1964, coloca jornalões e quejandos de um lado só, então a favor do golpe, nos últimos dez anos contra um governo tido como de esquerda, atualmente a carregar a herança de Lula. Vale observar, aliás, que mesmo no instante do pretenso arrependimento, O Globo de domingo passado desfralda os mesmos argumentos de 50 anos atrás. Donde a evocação da “divisão ideológica do mundo” à sombra álgida da Guerra Fria, aprofundada no Brasil “pela radicalização de João Goulart”. Enfim, renova-se o aviso fatídico: a marcha da subversão estava às portas. Eu a espero em vão até hoje.

Sim, o doutor Roberto acreditou ter agido acertadamente até sua morte e sempre chamou o golpe de revolução. Explicaria em um dos seus retumbantes editoriais da primeira página, no 20º aniversário daquele que seus pupilos agora definem como “equívoco”, que “sem povo não haveria revolução”. E quem seria o povo daquela quadra criminosa? As marchas dos titulares da casa-grande e dos seus aspirantes, secundados pelos fâmulos momentaneamente retirados da senzala.

Sim, é verdade que muitos jornalistas de esquerda tiveram abrigo na redação de O Globo, e alguns deles foram e são amigos meus, mas não me consta que o doutor Roberto se tenha posicionado “com firmeza contra a perseguição” de profissionais de quaisquer outras redações. Vezos nativos. O Estadão chegou a hospedar colunistas portugueses, inimigos do regime salazarista. Tinham eles a virtude de escrever em castiço os editoriais ditados pelo doutor Julinho. Este gênero de situações reflete a pastosidade emoliente da realidade do País, onde o dono da casa-grande pode permitir-se tudo o que bem entender.

De todo modo, não é somente deste ponto de vista que a Globo foi deletéria. Ensaios foram escritos no exterior para provar como a influência global foi daninha, inclusive com telenovelas vulgarizadoras de uma visão burguesota, movida a consumismo e cultura da aparência, visceralmente apolítica, anódina e inodora. Como tevê, e como jornal, a Globo já foi bem melhor. Ocorrem-me programas de excelente qualidade, conduzidos por humoristas como Chico Anysio e Jô Soares, capazes às vezes de ousar o desafio sutil à ditadura. Mas a queda foi brutal, como se deu em relação ao jornal à época da direção de Evandro Carlos de Andrade. Lamentáveis as opiniões, em compensação, boa, frequentemente, a informação. O texto do editorial carece, é óbvio, da grandeza que a situação recomendaria, pelo contrário é de mediocridade e superficialidade doridas, não somente na lida difícil com o vernáculo, mas também pela demonstração, linha a linha, palavra a palavra, e, mais ainda, no desenrolar do raciocínio central, da sua insinceridade orgânica. Surge, de resto, da covardia diante das manifestações anti-Globo e, como de hábito, aferra-se à hipocrisia típica dos senhores da casa-grande, velhacos até a medula.

Esta é a gente que gosta de brigar na proporção de cem contra um, se possível mil, sem mudar o número de quantos ousam confrontá-los. Incrível, embora natural, inescapável, nesta pasta víscida e maligna que compõe a verdade factual do país da casa-grande e da senzala, a falta de um debate em torno da peculiar confissão global, como acentua Claudio Bernabucci na sua coluna desta edição. Que dizem os jornalões acusados de conivência pelo O Globo? Que dizem as lideranças partidárias? E o Congresso? Nem se fale das figuras governistas e parlamentares que até agora enxergam na Globo um sustentáculo indispensável.

Silêncio geral, entre atônito e perplexo.

https://www.youtube.com/embed/9dzJBFHyiKs

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/revista/765/a-ingratidao-da-globo-8943.html

13 Comentários

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Será que não está se redimindo por estar nas mãos do Governo?

Requião confronta Mesa do Senado e cita ligações suspeitas com a Rede Globo

7/3/2014 12:58
Por Redação - de Brasília

O senador Requião critica o modelo econômico de gestão da presidenta Dilma

O senador Requião critica subserviência do Senado ao poder da mídia conservadora, principalmente à Globo

Em pronunciamento na tribuna, noite passada, o senador Roberto Requião (PMDB-PR) acusou a Mesa do Senado de “procrastinar” o exame de dois requerimentos apresentados por ele em novembro passado, com o objetivo de obter informações relacionadas às dívidas das Organizações Globo e também aos empréstimos concedidos pelo BNDES a empresas ligadas ao mesmo grupo empresarial. Requião não poupou críticas ao presidente da Casa, o correligionário alagoano Renan Calheiros.

Logo após assumir o cargo, Calheiros – que vivia um cerco na mídia conservadora por conta de escândalos que o envolveram, no passado – fez um discurso no qual prometeu frear os ânimos pela democratização da mídia brasileira. Renan comparou a iniciativa à edição da Ley de Medios argentina e às iniciativas que permitiram o florescimento de novos meios de comunicação no Equador e na Venezuela, países onde a concentração da propriedade dos meios de comunicação eram comparáveis àquela que o Brasil vive, atualmente.

O senador Renan Calheiro disse que “imporia um antídoto contra as pretensões que atingem alguns países”. Afirmou que criaria “uma barreira contra os calafrios causados pelo inverno andino e barrar esses ares gélidos e soturnos”. Após o pronunciamento, Calheiros não apareceu mais em situação difícil nas páginas dos diários mantidos pela ultradireita no país.

Segundo Requião, a Mesa do Senado examinou os requerimentos no começo de fevereiro e a decisão foi de que os que diziam respeito às empresas do Sistema Globo deveriam seguir para votação no Plenário do Senado. No entanto, como informou o senador do PMDB, uma semana depois, houve uma mudança e os pedidos de informação foram remetidos para avaliação da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).

– A leitura que qualquer jejuno faz do fato é que a Mesa se acovardou. A Mesa se acovardou e se curvou diante da Rede Globo. Mudou a decisão para procrastinar. Terá sido uma generosidade voluntária? Ou terá a Globo pedido e ordenado que assim a Mesa procedesse? A quem está respondendo a Mesa do Senado. A Rede Globo agora comanda a Casa? – questionou o senador em pronunciamento no Plenário na quarta-feira.

Na Presidência da sessão, o senador Alvaro Dias (PSDB-PR) esclareceu que o relator dos requerimentos sobre o Sistema Globo, João Vicente Claudino (PTB-PI), pediu a análise da CCJ, porque julgou necessário esclarecer se os pedidos respeitam a legislação quanto à proteção dos sigilos fiscal e financeiro.

Alvaro acrescentou que, embora não seja membro da Mesa, apurou com a assessoria do Senado que não houve nenhuma decisão no sentido de submeter os requerimentos ao exame do Plenário. Essa informação, disse Alvaro Dias, foi fornecida incorretamente por “erro de um funcionário”.

‘Mesa se acovardou’

Requião disse que, por temer um atraso do Senado, pediu, como cidadão, as mesmas informações ao governo federal, fazendo uso da possibilidade aberta pela Lei de Acesso à Informação.

– As respostas que chegaram a mim são ainda mais estapafúrdias e furadas – afirmou.

Ele contou que, em um dos requerimentos, pediu ao Ministério da Fazenda que repassasse as informações não protegidas pelo sigilo fiscal sobre as dívidas tributárias das Organizações Globo, já que o tema se tornou público, uma vez que parte dos débitos se encontra em discussão na Justiça.

O Ministério da Fazenda se recusou a fornecer qualquer dado, alegando que todas as informações estão protegidas pelo sigilo fiscal. Já em relação aos empréstimos do BNDES concedidos ao grupo, o Ministério do Desenvolvimento respondeu que não tem acesso aos dados.

Em seu discurso, Requião relatou que apresentou um terceiro requerimento, sobre a participação do capital estrangeiro no Banco do Brasil. O pedido de informações foi encaminhado no dia 17 de fevereiro ao ministro da Fazenda, Guido Mantega. Nesse caso, o Ministério da Fazenda transferiu para o Banco Central a responsabilidade de esclarecer as dúvidas levantadas pelo senador paranaense.

– Ou seja, nós não temos mais ministro da Fazenda e presidente da República. Quem está mandando no Brasil é o Banco Central. É o Banco Central que determina que as ações do Banco do Brasil devem ser privatizadas e que ele deixa de ser um banco público, tendo cerca de 40% das suas ações privatizadas, com direito a assento no Conselho de Administração e no Conselho Fiscal.

O senador enfatizou, de qualquer maneira, a intenção de conseguir no Plenário o apoio necessário para ter acesso às informações sobre as Organizações Globo:

– Veremos se há ainda senadores da República no Brasil ou se o Senado está, como a Mesa, genuflexo diante da influência de uma rede monopolizada de comunicação. continuar lendo

Pode não ter ficado rico, mas todo empreendimento realizado por Mino Carta foi um sucesso.
Por Juremir Machado, no Facebook: Estou com livro novo. Escrevi “1964 golpe midiático-civil-militar” para me divertir. Trabalhei como um cão, mas senti prazer. De que trata realmente meu livro? De como jornalistas e escritores hoje cantados em prosa e verso apoiaram escancaradamente o golpe: Alberto Dines, Carlos Heitor Cony, Antonio Callado, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resend, Otto Maria Carpeaux, Rubem Braga e outros.
E Cony recentemente acusou o Jornalista Hélio Fernandes de ser "dedo-duro" da ditadura. continuar lendo

Sei Não! ao contrário a globo tem se comportado como as demais emissoras, sempre a serviço do governo, qualquer que seja ele. voces agora estão comendo no mesmo prato. A ingratidão é o pior dos sentimentos. continuar lendo

Bem a Globo é a Globo, está possui uma "escritura" de uma área onde o vendedor é qualificado inclusive com seu CPF, até ai nada, tudo normal, ocorre que na data que consta no documento ainda não havia sido criado o CPF;
Agora, estar contra LULLA, eu também estou e é pena que não tenha sido preso e todo o resto na época da ditadura, pois assim estaríamos livre desta praga que continua iludindo nosso povo pobre e ignorante; continuar lendo